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quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Arte Invisível - Plinio Martins Filho


Título: A Arte Invisível
Autor: Plinio Martins Filho
Editora: Ateliê Editorial
Formato: 7,5 x 10 cm
Nº de páginas: 160
Ano de publicação: 2008 (2ª edição)
Capa dura

***
Quando abri a caixa que chegou essa semana da Ateliê Editorial, fiquei surpresa com o tamanho deste livro (7,5 x 10 cm!). Em geral, quando compro livros pela internet, não me atento ao formato, por isso a surpresa. Ele tem o mesmo ou quase o mesmo formato de um livro de pensamentos positivos (Gotas de sabedoria - ou algo assim) que ganhei da amiga Aline Storto há mais de dez anos. É um livro que abrimos aleatoriamente e lemos alguma mensagem boa.


Bom, este é oficialmente o primeiro livro de design que leio. E gostei de ter começado por ele, pois, além de ter um design surpreendente, tem pensamentos, opiniões e posições de vários designers e/ou estudiosos de design, selecionados pelo autor, que me despertaram interesse por aprender mais sobre a área. Só o tamanho da fonte me incomodou um pouco no começo (é bem pequena em relação ao tamanho das fontes de livros maiores, mas é proporcional ao tamanho do livro), depois a leitura fluiu bem.

O livro também traz capas de profissionais de design cujas citações aparecem no livro. Vários livros foram publicados pela própria Ateliê Editorial, então acabam funcionando como sugestões de leitura.


Abaixo, reproduzo algumas citações que mais me chamaram a atenção e me fizeram concluir que talvez o design tenha em comum com a tradução a "invisibilidade": quanto menos atenção o design e a tradução chamarem para si, melhor é o trabalho (embora isso não seja consenso). E, apesar de haver determinadas "tradições tipográficas", também é preciso buscar soluções gráficas criativas e não apenas seguir modelos.

"Algumas editoras não têm qualquer conhecimento do design de livro. Preocupam-se apenas em colocar o máximo possível de letras numa página. A falta de estilo ou elegância de seus livros é tamanha que só posso presumir que nenhum designer sequer chegou perto dos livros que publicam." ~ Richard Hendel 

"Não é somente o que o autor escreve num livro que vai definir o assunto do livro. Sua forma física, assim como sua tipografia, também o definem." ~ Richard Hendel

"[...] Nosso design é contemporâneo. Não pode deixar de sê-lo. Não se pode copiar e repetir com sucesso nem mesmo a mais bela tipografia de outra época - porque não se viveu naquela época." ~ W. A. Dwiggins

"Os designers precisam pensar menos em fazer o design do livro e mais em fazer o design para a leitura." ~ Paul Stiff

"Não cometa exageros." ~Bert Brown

"Nada de regras!" ~Cameron Poulter

"O processo de design de livros muda com o tempo e com a tecnologia. Os designers variam continuamente seu modo de pensar na solução de problemas e a cada novo projeto aprendem coisas novas. Estão sempre experimentando, testando as convenções tipográficas. Surpreendentemente, as ideias mais valiosas provêm das mínimas revisões de maneira usual de trabalhar." ~Richard Hendel

"[...] Se tenho uma filosofia com relação ao design de livros, é a de que seu design deveria ser feito para os leitores. Minha preocupação principal é sempre apresentar o texto da maneira mais clara possível, para que o leitor possa ter acesso direto ao texto do autor sem ser inibido ou interrompido por minha intervenção. [...]" ~Ron Costley

"Tipografia é a arte de escolher o tamanho correto, o comprimento certo da linha, de escolher as diferentes espessuras das informações do texto." ~Wolfgang Weingart

"A principal responsabilidade do designer é a criação de uma plataforma que transmita, realce e classifique a informação para o leitor, onde o foco deve ser mais o texto que o design." ~Anita Walker Scott

"Os grandes tipógrafos não fizeram seus livros com a finalidade de fazer uma arte do livro, ao contrário: eles fizeram seus livros tão bem que disso surgiu a arte do livro." ~Plinio Martins Filho 

"O livro é uma totalidade criada por muitas pessoas em conjunto e não apenas pelo designer. Só quando todos trabalham em coordenação, quando todos têm como ponto de partida a mesma ideia do que é a qualidade é que o trabalho pode ter êxito." ~Plinio Martins Filho

Vale a pena ter esse livro para ler todas as citações e depois reler sempre que quiser!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Otávio Júnior, o livreiro do Alemão


Título: O livreiro do Alemão
Autor: Otávio Júnior
Editora: Panda Books
Formato: 14 x 21 cm
Nº de páginas: 80
Ano de publicação: 2011


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Encontrei este livro meio que por acaso, vasculhando promoções em algum site há algum tempo e foi uma grata surpresa.

Gosto de biografias e autobiografias, pois, em geral, elas me inspiram. Fico admirada quando descubro como algumas pessoas conseguem traçar planos e sonhos e correr atrás deles. De certa forma, sucesso para mim é isso: concretizar planos e sonhos. Ter determinação e força de vontade para transformar ideias em algo concreto. Muita gente se perde no caminho e acaba não concretizando nada. Por isso gosto de ler histórias de pessoas que queriam muito algo e como chegaram lá.

Foto tirada daqui


Quando tinha 8 anos, Otávio encontrou uma caixa de brinquedos perto de um campo de futebol que costumava frequentar. Como ele deu um grito de espanto, os outros meninos que estavam jogando futebol logo vieram ver o que ele havia encontrado e ele acabou ficando só com um livro chamado Don Gatón. Naquela noite choveu forte e a luz acabou, então Otávio se lembrou do livro e foi ler à luz de velas.

Assim começa a história de Otávio, que acabou se tornando um leitor ávido: frequentava bibliotecas e pedia livros para os moradores da comunidade. E os livros que lia acabaram inspirando-o a criar uma "barracoteca" na comunidade onde vive, o Morro do Caracol, vizinho ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, com o intuito de despertar nas crianças a vontade e a curiosidade pela leitura e pelos livros.

Otávio também treinava futebol e fazia aulas de teatro quando era adolescente. A certa altura, a mãe passou a manter a casa sozinha, pois o pai havia se tornado alcoólatra; nessa época, ele talvez tenha sentido obrigação de ajudar a mãe e começou a fazer dinheiro a partir do teatro (encenava peças em escolas).O treinador de futebol pediu para que ele escolhesse entre o futebol e o teatro, pois ele não estava mais rendendo em campo como antes. Ele ficou com o teatro. 

Depois escreveu um livro infantil, enviou para as editoras, mas nenhuma se interessou. Com a ajuda da lista telefônica, procurou uma gráfica, mas quando chegou lá, a dona havia falecido há alguns anos, mas (sorte? destino?) o filho da dona, que devia cuidar da gráfica na época, ficou com o original e pediu para ele voltar lá depois de uma semana. Otávio voltou, o dono da gráfica disse que ele (Otávio) precisava encontrar alguém que revisasse o livro e também um ilustrador - o dono da gráfica então imprimiria os livros de graça, seria um presente.

Vários meses depois, o livro ficou pronto, Otávio participou de feiras do livro dentro e fora do país. Vendeu seus livros. Na verdade, não foi tão fácil quanto estou contando. Na Flip, por exemplo, ele foi praticamente só com o dinheiro da passagem de ida, sem ter dinheiro para pagar lugar para ficar nem passagem de volta, vendeu livros e, assim, conseguiu pagar um albergue, comida e arranjou carona para voltar para o Rio. Como sobrou um dinheiro da venda dos livros na Flip, em 2003 ele veio para a 1ª Feira do Livro Infantojuvenil, em São Paulo.

É uma história de superação incrível. Mas ainda tem mais.

Otávio chegou a participar do programa Caldeirão do Huck, no quadro "Agora ou nunca", para tentar ganhar R$ 10 mil e, entre outras coisas, investir em projetos de leitura voltados para a comunidade. Ele ganhou. Tentei encontrar o vídeo no YouTube, mas não consegui. Por outro lado, encontrei esse vídeo em que ele resume a história dele:



Também encontrei o blog com o projeto do Otávio, Ler é 10, Leia favela, mas infelizmente ele não é atualizado desde 2013. 

Esse livro foi bacana de ler por dois motivos:

Primeiro, é possível ter uma leve noção da dinâmica de uma favela. Claro que o Otávio não entra em detalhes, mas conta que as crianças que moram nas favelas dos morros, em geral, não saem dali, não conhecem nem a praia, pois tudo é perto (a igreja, o mercado, a escola), o que limita um pouco o olhar e as perspectivas delas. O acesso à cultura também fica limitado, já que bibliotecas, cinemas, teatros não ficam tão perto. A leitura seria um meio de alargar a visão delas, mostrando que, apesar de a vida muitas vezes ser difícil ali (falta de recursos de todos os tipos e sobram violência, tiroteios, tráfico de drogas), existem outras possibilidades. Outro fato óbvio, mas que eu não sabia, é que os traficantes dão "assistência social" para os moradores - por exemplo, compram um botijão de gás e outras coisas de que as famílias precisam -, mas exigem respeito e lealdade; por isso, em caso de delação, as pessoas são juradas de morte e são torturadas antes de ser executadas para servirem de exemplo. Isso me faz pensar que o governo poderia ter agido e não agiu na hora certa; deveria cuidar dessa população, mas quem supostamente dá assistência, na verdade, são os bandidos - como vão reverter isso? UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) bastam?

Segundo, porque quando penso em trabalho voluntário, uma das duas coisas que eu gostaria de fazer e faria com prazer seria isso que o Otávio faz tão bem: divulgar livros e leitura para crianças. Acredito que as crianças podem crescer com mais consciência de que têm escolhas (em maior ou menor grau, mas têm escolhas; entrar para o tráfico de drogas, por exemplo, é uma escolha) e que podem decidir o que é melhor para si próprias no futuro. Outro trabalho que imagino que seja muito gratificante é alfabetizar jovens e adultos - faria isso como voluntária com muito prazer. Já participei de alguns trabalhos voluntários, mas nunca senti que realmente estivesse fazendo alguma diferença. Esses dois tipos de trabalhos me dariam satisfação porque, mais dia, menos dia, o impacto positivo (da leitura e da alfabetização) na vida das pessoas ia começar a aparecer. E fora o óbvio: a minha crença de que todos deveriam ter o direito de saber ler, escrever e de decidir o que é melhor para si.

Minha admiração, Otávio Júnior!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A arte de recusar um original - Camilien Roy



Título: A arte de recusar um original
Título original: L'art de refuser un roman
Autor: Camilien Roy
Tradutor: Pedro Afonso Vasquez
Editora: Rocco
Formato: 12,5 x 20 cm
Nº de páginas: 144
Ano de publicação: 2009


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Se você trabalha numa editora, já precisou escrever uma carta de recusa para algum autor que enviou um original não solicitado? Se você é escritor/futuro autor, já recebeu uma carta de recusa de alguma editora?

Nunca fui responsável por selecionar originais de autores nacionais e enviar cartas de recusa. No entanto, imagino que não seja tão difícil fazer uma primeira análise de um original, verificar se ele se encaixa na linha editorial, se tem uma qualidade mínima para ser publicado, se tem potencial de vendas (auxiliado ou não por investimento em marketing), se a editora teria verba para publicar aquela obra naquele momento, se aquele momento é ideal para publicar/ investir em uma obra como aquela, se outras editoras já não publicaram títulos semelhantes etc. Dependendo da avaliação final, depois basta enviar uma carta de recusa padrão ao autor ou, caso se decida publicar, entrar em contato com ele para acertar detalhes de publicação e assinatura do contrato.

Mas, voltando ao livro, ele contém quase 100 (contei 98) cartas de recusa escritas em vários estilos: clássico, agressivo, honesto, direto, desdenhoso, redundante, entre vários outros. Às vezes é engraçado e algumas cartas parecem expressar a personalidade de editores de carne e osso e o que gostariam de escrever para determinados autores.

Seguem alguns trechos de cartas contidos no livro:





Mesmo o livro tendo um formato pequeno e sendo relativamente curto, demorei um pouco para terminar a leitura, pois, em certo ponto, começa a ficar cansativo. É basicamente a mesma coisa escrita de formas diferentes. Apesar disso, é um livro curioso.

Lendo alguns trechos das cartas, lembrei da Stephenie Meyer, autora da série de livros Crepúsculo, pois há vários anos entrei no site dela e, apesar de não simpatizar com os livros dela - e de não ter lido nenhum deles -, era bastante interessante a forma como (ela diz que) tudo aconteceu: ela sonhou com os protagonistas e escreveu alucinadamente a história com os personagens do sonho enquanto os filhos estavam na escola; depois enviou o original a várias editoras e contou que recebeu cartas debochadas e mesquinhas de alguns editores. Pesquisei e parece que isso é (ou pelo menos era) bastante comum: alguns editores, supostamente os donos da verdade, falam ou mandam cartas dizendo, em outras palavras, que os autores escrevem muito mal. Fiquei pasma porque isso aconteceu até com o Cristóvão Tezza (autor do ótimo romance O filho eterno) - leiam esta matéria.


Depois de ler este livro e de saber que alguns editores são tão arrogantes, cheguei a algumas conclusões (talvez muito óbvias, ou não):

1. Muitas pessoas aspirantes a editores apreciam "alta literatura"; gostam de ler livros que tenham algo de significativo etc. No entanto, existem poucas editoras que publicam esse tipo de livro, até porque há relativamente poucas pessoas interessadas em comprar esse tipo de produto (lembrando que o livro é um produto, ainda que não pareça), logo, a probabilidade de futuros editores trabalharem em editoras que publicam livros de autoajuda, técnicos, didádicos, entre outros gêneros mais "acessíveis" é bem maior do que trabalhar em uma editora que publique literatura.

2. Supondo que houve oportunidade ou sorte ou oportunidade e sorte, além de esforço pessoal, e a pessoa conseguiu um emprego de editor em uma editora que publica livros de ficção (romances e contos) de autores nacionais. E que, entre outras atividades, esse editor precisará selecionar originais de futuros autores para publicação *frio na barriga*. Como lidar com centenas de originais não solicitados e de baixa qualidade? [Eu mandaria uma carta de recusa padrão para a maioria dos originais não selecionados e pronto.]

3. Por que alguns editores são tão arrogantes a ponto de fazer os autores se sentirem um lixo? Ainda mais se pensarmos que muitos editores não são necessariamente escritores/autores. Para mim, não faz sentido gastar energia com isso. [Manda uma carta de recusa padrão e pronto!] Para mim, um bom editor é também um "antecipador de tendências". Pode até ser que o livro não seja "bom" [de acordo com o que cada um julga "bom" ou "literário" ou "alta literatura"], mas pode ser um ótimo best-seller, ou seja, um livro com um alto potencial de vendas. Se o livro vender muito, ganha o autor, ganha a editora e talvez o editor, que talvez tenha aval do diretor geral para investir uma parte do lucro desse best-seller em outras obras menos vendáveis mas importantes para outros tipos de leitores e para manter o catálogo com títulos de qualidade. Para mim, hoje em dia, não faz sentido a editora ter um catálogo "invejável", com livros excelentes (conteúdo e arte gráfica) se os livros ficam todos encalhados no estoque.

4. Conclusão final: editores precisam ser, além de intelectuais (talvez), sensatos e bons administradores. É preciso se despir de toda a "intelectualidade" e arrogância, para dar lugar ao administrador, além de ter bom senso o suficiente para entender que se a editora não tiver livros que vendam (independentemente da qualidade literária) em seu catálogo, uma hora a editora pode quebrar. Num futuro próximo, imagino que os editores precisarão ter esse tipo de visão macro e meio cínica. Até porque não seria sensato massacrar autores altamente rentáveis como a Stephenie Meyer.

Vamos conferir se o que estou escrevendo faz sentido (ou não). Daqui uns anos, daqui a vários anos.

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Links sobre esse assunto (recusa de originais por editoras) que li e achei interessantes:

Editores esnobam Machado de Assis - Esdras do Nascimento, Observatório da Imprensa
Meu original foi recusado, por quê? - Laura Bacellar, Escreva seu livro
O romancista que não sou - Luiz Schwarcz, Blog da Companhia


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Livros, Editoras & Projetos


Título: Livros, Editoras & Projetos
Autores: Plinio Martins Filho (org.), Jerusa Pires Ferreira, Jacó Guinsburg e Maria Otilia Bocchini
Editora: Ateliê Editorial
Formato: 16x16 cm
Nº de páginas: 120
Ano de publicação: 2007 (3ª edição)

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Apesar de ter sido publicado pela primeira vez em 1997, este livro contêm muitas informações úteis e ainda válidas para quem trabalha no mercado editorial ou se interessa pelo assunto, além de conter várias referências a outros livros e estudos da área.

No primeiro capítulo, "A proposta", Jerusa Pires Ferreira, professora livre-docente da ECA-USP, escreve sobre a importância de se discutir e pensar o processo de produção do livro e cita várias referências.

Em "O editor e o projeto" (meu capítulo preferido), Jacó Guinsburg, professor da ECA-USP e da FFLCH, fundador e diretor da Editora Perspectiva, discorre sobre o papel e importância do editor, editoras universitárias, a dificuldade de se administrar uma editora com esse perfil e suas experiências como editor dos projetos da Editora Perspectiva.

Gostei muito e me identifiquei com esse trecho do Jacó Guinsburg (p. 43):

Uma editora não é apenas uma opção profissional. É uma opção de vida também, porque o livro é mais ou menos como aquela coisa do cacau de Jorge Amado: pega no pé da gente. É o visgo que pega no pé da gente. Quem trabalha com livros, dificilmente sai da área, porque há todo um envolvimento que eu sequer poderia objetivar. Um envolvimento que decorre de muitos aspectos, e do qual surge, tanto para os que atuam no campo da produção, como para aqueles que trabalham mais especificamente na realização gráfica, na distribuição comercial ou nas tarefas da editoração, um apelo que é muito grande. Conheço, mesmo, pessoas com trinta, quarenta, cinquenta anos em todas essas áreas de produção de livros, e que mantêm seu interesse, seu entusiasmo até pela natureza desse objeto que é tão imaterial. [...]

O capítulo "A relação produtor/editor" foi escrito por Plinio Martins Filho, professor do curso de Produção Editorial da ECA-USP e diretor editorial da Edusp, além de ter atuado como produtor, revisor e diagramador, principalmente da Editora Perspectiva. Aqui, Plinio conta um pouco sobre a concepção e produção da coleção Debates e da coleção Estudos e sobre as praticidades e eventuais problemas de se editar coleções, como, por exemplo, a economia em projeto (em uma coleção, todos os livros precisam ter o mesmo formato e apresentar o mesmo projeto) e a necessidade de pensar na coleção como um todo, incluindo o formato de papel a ser utilizado para que haja o máximo de aproveitamento. Para se imprimir livros, há formatos de papel padrão (66x96 cm ou 87x114 cm, entre outros) e, dependendo do formato do livro, um formato de papel é mais indicado que outro, visando seu maior aproveitamento; por exemplo, para se produzir livros em formato 16x23 cm, o formato mais indicado é o 66x96 cm.

Em seguida, Plinio explica sobre dois tipos de montagem do livro: o linotipo e a composer, que, para falar a verdade, não entendi direito, e que, pelo que sei, não são mais comumente utilizados. O que acontece hoje em dia, que pude presenciar em visitas a três gráficas, é o seguinte: a editora envia o arquivo em alta resolução no formato PDF (geralmente diagramado no programa InDesign pelo designer) e, a partir desse arquivo, são gravadas "chapas" com o conteúdo do livro e essas chapas são utilizadas em grandes impressoras para impressão de tiragens a partir de 500 exemplares - tiragens menores que isso têm um preço muito alto e, em geral, não compensam para a editora. E, também, hoje em dia tiragens menores (em geral, a partir de 10 exemplares, embora algumas gráficas trabalhem com um número ainda menor) são impressas em "gráficas digitais". Esse tipo de gráfica nem chega a gravar chapas; o livro é rodado em impressoras especiais e o livro tem o mesmo resultado e aparência do livro impresso em offset (em grandes impressoras). Portanto, penso que essa parte do texto precisaria ser atualizada.

Em "Projetos editoriais em laboratório", Maria Otilia Bocchini, professora da ECA-USP, conta sobre a experiência e dificuldades de se manter uma editora-laboratório, como é o caso da Com-Arte, que faz parte do curso de Produção Editorial da ECA. Não sei como está este laboratório atualmente, mas ela conta que havia várias dificuldades a ser superadas para que o laboratório continuasse funcionando e para que os alunos tivessem um contato com a área em que atuariam. A Com-Arte chega a publicar livros "de verdade", produzidos pelos próprios alunos, com supervisão de professores. Pessoalmente, acho a experiência superválida, uma vez que muitos alunos ali vão atuar em editoras de livros depois de formados.

Por fim, Jerusa Ferreira, que assinou o primeiro capítulo, encerra o livro com um texto-resumo sobre um trabalho com editoras populares do Brás, que editam livros com forte apelo para as camadas mais "populares", como é o caso, por exemplo, de operários. Entre os livros mais vendidos dessas editoras estão livros de significado dos sonhos, de santos, romances (imagino que do tipo Julia e Bianca) e guias para autoaprendizado (como aprender a lutar karatê, por exemplo). Hoje em dia talvez o perfil dessas editoras tenha mudado um pouco (considerando que a 1ª edição deste livro foi publicada em 1997 e a 3ª edição em 2007), pois houve um aumento do poder aquisitivo dessas camadas da população nos últimos anos e, talvez, agora haja uma maior exigência em relação aos produtos/livros a ser consumidos ou mesmo uma alteração no gosto/demanda desse tipo de público.

Gostei muito da leitura e recomendo.


domingo, 20 de abril de 2014

O Brasil pode ser um país de leitores?


Título: O Brasil pode ser um país de leitores? - Política para a cultura/ Política para o livro
Autor: Felipe Lindoso
Editora: Summus Editorial
Ano de publicação: 2004
Nº de páginas: 224

Apesar de ter sido publicado há dez anos e ter algumas informações provavelmente desatualizadas, este livro é muito bom para entender como ocorreu o desenvolvimento do mercado editorial brasileiro e qual a sua dinâmica atual.

É dividido em três partes:

Parte I - Política da cultura

Aqui, Lindoso apresenta alguns dados sobre a política cultural no país, e reflete sobre a dificuldade de o governo conseguir incentivar e promover a leitura de forma eficaz. Parece existir um grave problema, pois as verbas para incentivo à cultura não são bem distribuídas (a maior parte do orçamento do governo vai para a produção de filmes e patrocínio de shows e eventos culturais), além do fato do produto desses incentivos (shows, peças teatrais, filmes) não chegar à maioria dos brasileiros.

Política cultural que se preocupa exclusivamente em distribuir recursos para a produção de bens culturais e não para o acesso da cidadania aos bens produzidos é simplesmente a reprodução do passado.

Parte II - O livro e a política cultural

Na segunda parte,  para mim, a mais interessante, o autor resume a história da indústria de livros no Brasil, desde o século XIX, época em que, tardiamente, o país passou a publicar livros; até 1808 Portugal proibia a existência de imprensa em sua colônia.

Foi somente em 1808, quando D. João - então príncipe regente e posteriormente D. João VI de Portugal - chegou ao Rio de Janeiro, fugido da invasão napoleônica, que o país teve sua primeira imprensa. A corte trouxera de Portugal os equipamentos da Imprensa Régia e também o núcleo do acervo que mais tarde constituiria a Biblioteca Nacional, incluindo-se aí obras raras e incunábulos. [...] Na verdade, a impressão de livros só  veio a acontecer comercialmente bem mais tarde, e até o final do século a maior parte dos livros editados no Brasil era feita em Portugal ou em Paris.

Em meados do século XIX, alguns editores europeus começam a investir na publicação de livros literários e também escolares no Brasil. Devido ao crescimento econômico de São Paulo a partir das décadas finais do século XIX (cultivo do café e industrialização), houve a expansão da rede de ensino, o que, consequentemente, aumentou a demanda por livros, principalmente didáticos. É interessante observar o desenvolvimento de várias editoras de que ouvi falar e de algumas que existem até hoje (Francisco Alves, Saraiva, José Olympio, Nacional, Melhoramentos).

Entre outras histórias, ficamos sabendo da saga de Monteiro Lobato como editor, que começa a partir de 1918. Nessa época, havia um sério problema de distribuição dos livros no país e Lobato (gênio!) teve a ideia de propor aos donos de bancas de jornal, papelarias, farmácias e armazéns que aceitassem vender os livros consignados, dessa forma, conseguiria atingir seu público. Não sei se ele era exatamente um excelente escritor (acho a Emília uma chata!), mas era um editor muito empreendedor e merece minha admiração.

Nessa parte do livro, também há um capítulo sobre a aquisição de livros pelo governo e outro sobre o fomento governamental ao livro. Esses capítulos talvez estejam um pouco desatualizados, pois tenho percebido um esforço um pouco maior do governo para incentivar a leitura (como o aumento do número de feiras literárias Brasil afora, por exemplo). Claro que o número de bibliotecas e o acesso ao livro à maioria das pessoas ainda não é uma realidade, mas, aos poucos, talvez chegaremos lá. Só posso dizer que a venda de livros para o governo é bastante burocrática e um tanto obscura. As editoras maiores parecem se beneficiar e enriquecer disso, enquanto as editoras menores e independentes tendem a sumir.


Parte III - Globalização e cultura

Nesta terceira parte, o autor reflete sobre a indústria do livro em escala global e como isso pode afetar a oferta de diversidade de títulos (cada vez mais, as editoras tendem a ser absorvidas por "conglomerados", que, por sua vez, vão querer publicar apenas livros com potencial de vendas).

 O grande problema da cultura de best-sellers é precisamente este: as editoras precisam de livros de grande sucesso e venda rápida. As cadeias de livrarias, pressionadas também por custos, acentuam essa pressão, e o resultado final é a diminuição do espaço nos catálogos editoriais e nas prateleiras das livrarias para autores novos.

Por último, o autor escreve rapidamente sobre a importância da nossa literatura infantil e sobre sua divulgação no exterior.

Além de ser um livro bastante informativo, me fez refletir sobre a questão que o autor propõe já no título: O Brasil pode ser um país de leitores? 

Concluo que, sim, o Brasil pode ser um país de leitores, apesar da concorrência com TV, computador, tablets, celulares, videogame. No entanto, penso que algumas políticas que vêm sendo adotas precisam ser reforçadas ou alteradas:

1. construção de mais bibliotecas, principalmente em cidades do interior (em teoria, o governo já está ciente disso e trabalhando nisso, mas, na prática, não sei o que vem sendo feito);

2. criação de programas de incentivo à leitura desde a 1ª série do ensino básico, desde que a criança é alfabetizada (seja como matéria obrigatória ou como ciclos de leitura) e preparação de profissionais específicos para essa função;

3. incentivo fiscal para empresários que tenham interesse em abrir livrarias em locais em que elas não existem;

4. promoção do livro como uma forma interessante de entretenimento em bibliotecas e centros culturais;

5. incentivo/patrocínio a autores para divulgação de suas obras ou de literatura em geral em determinados locais, por meio de palestras e bate-papos;

6. incentivo a novos autores nacionais por meio de oficinas literárias e cursos de aprimoramento da escrita - isso eu acho importante para que as crianças não cresçam com a noção de que "livros nacionais não prestam" (revisando alguns livros, às vezes também fico com essa impressão, mas sei que também temos escritores excelentes) e se tornem leitores apenas de literatura estrangeira.


Biografia do autor retirada de seu blogue O Xis do Problema:

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, Diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. 
 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Fantástica Fábrica de Livros

Amanhã vou conhecer uma das gráficas que imprime os livros lá da editora e estou feliz! :)

Desde que li o livro do Pedro Bandeira, quando tinha uns 11 anos, fiquei fascinada e quis conhecer uma "fantástica fábrica de livros", agora, quase vinte anos depois, EU VOU! Além disso, também tenho o sonho de conhecer uma "fantástica fábrica de chocolates" (queria muito ter visitado a filial da Nestlé que fica em Caçapava, lá perto de São José!) e uma "fantástica fábrica de brinquedos" (brinquedos Estrela!).

A edição que li tinha essa capa:


 A edição atual foi reilustrada (eu peguei amor pela capa anterior!):


Também encontrei essa outra capa, mas não sei do que se trata:



O livro foi idealizado pelos donos da Gráfica e Editora Hamburg, para comemorar os 21 anos da empresa. E o Pedro Bandeira conta a história encomendada de um jeito tão bacana! A personagem principal é a Laurinha, uma pré-adolescente de 12 anos (não sei se é 12, mas ela está na 6ª série), que chora, pois seu namorado a deixou para ficar com outra menina do colégio. Então ela vai para uma floresta onde Adriano fez um coração com as iniciais dos nomes deles (L e A) dentro, mas percebe que a árvore foi cortada. Ela fica indignada quando vê vários troncos, inclusive o "seucalipto", empilhados e então se inicia a contação de como é a produção de um livro - desde a fabricação do papel até o livro final. A parte editorial é bemmmm resumida e já não é a mesma que está no livro. Hoje em dia não se usa mais "fotolito", os livros são preparados pelos diagramadores em arquivos, que depois são enviados para a gráfica imprimir. Os escritores não entregam mais os originais DATILOGRAFADOS, mas em arquivos em Word, no qual os preparadores de texto trabalham. O arquivo preparado depois segue para o diagramador, que, em geral, diagrama em um outro programa o InDesign, insere fotos e ilustrações, dá uma cara de livro ao texto. E os ilustradores hoje em dia precisam dominar programas de computador que tenham a ver com o seu trabalho, pois não entregam mais as ilustrações no papel - precisam entregar em arquivo, vetorizados (salvos em arquivos leves e editáveis).

Estou empolgada. Vou ver como é que ficou a produção gráfica 20 anos depois...

Quem quiser ler o livro, é só clicar aqui. Disponibilizaram uma versão online grátis. Em duas horinhas já dá pra ler!

Em O mistério da fábrica de livros, Laurinha quer contar a história de amor dela em um livro (e conhece o autor que pode escrever a história (o próprio Pedro Bandeira), ilustrador, editor, gerente de gráfica, todos os envolvidos na produção do livro) e quer que o livro seja impresso nas folhas de papel feitas com o "seucalipto", no fim, consegue. Não sabia, mas acabei de descobrir que o Pedro Bandeira acabou escrevendo o tal livro da Laurinha! =)


Postado originalmente em 07/07/2011 aqui.

O que é Editora - Wolfgang Knapp



Para quem se interessa pelo mundo editorial ou por publicação de livros, recomendo O que é editora, escrito pelo austríaco radicado no Brasil Wolfgang Knapp e publicado pela editora Brasiliense na coleção O que é.

Apesar de a 2ª edição ter sido publicada em 1992, há mais de vinte anos, e algumas informações estarem desatualizadas ou incompletas (devido ao avanço tecnológico pelo qual a área editorial tem passado - tanto em relação a impressoras, gráficas quanto ao relativamente recente lançamento de livros eletrônicos), o livro vale muito a pena por apresentar características e procedimentos que a maioria das editoras ainda adota hoje.

Dois pontos que mais me chamaram a atenção: um é o fato de o autor falar um pouco sobre o produção gráfica e o outro, sobre viabilidade financeira de publicação de livros. Em um determinado ponto, ele diz que o editor deve ter conhecimentos técnicos de produção gráfica, ou seja, conhecer tipos e formatos de papel e o processo de impressão das gráficas (coisa que o editor com quem trabalho sempre diz que preciso aprimorar, mas é um pouco difícil, pois não tenho essa vivência de visitar e acompanhar os procedimentos em gráficas - sei que em editoras maiores há uma pessoa só para cuidar da qualidade da impressão, que visita as gráficas fornecedoras e acompanha a impressão, mas não é o meu caso). Sobre a viabilidade financeira de publicação, lembrei de algumas pessoas que querem ser editoras e muito provavelmente nunca ouviram falar de "viabilidade financeira de publicação" e talvez nem saibam que isso é necessário para planejar melhor e minimizar os prejuízos em potencial. Uma dica que dou a essas pessoas é que elas precisam ler e se informar mais sobre o negócio que pretendem abrir (sim, porque, afinal de contas, uma editora é uma empresa, um negócio passível de ter lucros e prejuízos e que tem várias despesas).

Procurei informações sobre o autor na internet, mas não encontrei. Não sei se ele ainda está vivo (na minibiografia está escrito que ele nasceu em 1933) e também não sei se ele escreveu mais livros sobre a área editorial. No livro também tem a informação de que ele queria ser agrônomo, mas, como a saúde não permitiu, estudou editoração e trabalhou como editor nos seguinte países: Alemanha, Áustria, França e Espanha, além de ter adquirido a própria editora no Brasil, a E.P.U. (Editora Pedagógica e Universitária) - pelo que pesquisei, a E.P.U. foi comprada pelo grupo GEN em 2011.
 
Esquematicamente, a função do editor pode ser apresentada assim: Editar livros é uma atividade quase mais maluca que escrevê-los. O editor precisa de uma vasta bagagem cultural. Mas dificilmente será um acadêmico. Muito menos um especialista, a não ser como hobby. [...]

O editor participa intensamente da vida cultural e intelectual. Incentiva a elaboração de manuscritos, a sistematização de ideias, a transformação de palpites em projetos. É um mensageiro entre produtos e consumidores de bens culturais.

Com esse post, inauguro uma nova tag no blog, "livros sobre livros". Como comecei a ler livros sobre mercado e produção editorial, e livros sobre livros em geral, para escrever meu TCC, aos poucos vou postando dicas dos livros mais interessantes. Quando terminar meu TCC, postarei a bibliografia completa.
Publicado originalmente em 15/09/2013 aqui.