Desde o começo do ano, o ritmo de trabalho na editora tem sido puxado.
Março foi o mês mais frenético desde que estou lá e abril também
promete. Estou cansada. Não é uma reclamação, é só uma
constatação.
Teve um dia em que eu tinha milhares de coisas urgentes (às vezes TUDO é
urgente) para resolver e o telefone não parava de tocar – pessoas
ligando para saber como publicar um livro, como comprar livros,
oferecendo todo tipo de produtos e serviços, autores, fornecedores – deu
vontade de chorar. De cansaço. Mas como menina não chora, eu não
chorei.
Na verdade mesmo, esse post vai ser sobre o que é (ser) uma assistente
editorial, editora-assistente, editora júnior ou seja lá qual for a
denominação que se dê para o cargo. Para quem não é do meio editorial, é
um pouco difícil explicar, mas tentarei. Acho que nem meus pais sabem
direito o que eu faço. Nem a maioria dos meus amigos que não trabalha
nesse meio.
É assim: a assistente editorial de uma editora, em geral, faz um pouco
de tudo. Durante esses últimos meses, fiquei pensando que um(a)
assistente editorial precisa cuidar de muitos detalhes às vezes
“invisíveis”, aparentemente simples, mas imprescindíveis, para que os
livros saiam. Entre o autor entregar o arquivo em Word do livro dele,
depois de o contrato de publicação ter sido firmado com a editora, até o
livro impresso sair, existe um infinito de coisas.
Enquanto ouço o CD com a trilha sonora de um dos meus filmes preferidos,
Lost in Translation, seguem detalhes.
Às vezes o(a) assistente editorial cuida apenas de assuntos editoriais
(basicamente coordenação de tradução, preparação e revisão de texto,
contratação de profissionais de texto, relacionamento com autores e
colaboradores em geral – entre milhares de “coisinhas” que vão
surgindo). Às vezes, cuida apenas da produção editorial (nesse caso, eu
chamaria de “assistente de produção”, mas nem tudo é assim tão claro), é
responsável por contratar designers gráficos, diagramadores,
ilustradores, comprar direitos de imagem, caso o livro tenha fotos,
solicitar ISBN, ficha catalográfica, escolher o tipo de papel em que a
capa e o miolo do livro serão impressos, enfim, cuidar da parte
"estética" do livro, para que o conteúdo (que já foi cuidado pelo
departamento editorial) seja apresentado de forma atraente, para que
milhares de leitores comprem o livro e a editora possa ganhar muito
dinheiro (hoho). Às vezes, o(a) assistente editorial trabalha tanto com
assuntos editoriais quanto de produção – é o meu caso no momento.
De editorial, reviso o que for necessário (a última revisão legal foi de
um livro de culinária italiana – adoro italiano, adoro comida, adoro
texto sobre comida!), às vezes confiro se o arquivo preparado (com
marcas de revisão no Word) está ok para ser enviado para o(a) designer
fazer o projeto gráfico/diagramar (mas, em geral, o editor encaminha o
arquivo para o designer), verifico se as alterações que o autor pediu
foram aplicadas no arquivo diagramado (arquivo que depois irá para a
gráfica e a partir do qual a impressão será feita), se precisar, entro
em contato com os autores para resolver pendências sobre texto, redijo
textos de quarta capa (aquele resumo que tem na parte de trás do livro) e
orelhas quando o próprio autor não faz isso, faço a remissão do sumário
e verifico possíveis falhas de diagramação (às vezes acontecem alguns
problemas, por exemplo, o tamanho da fonte fica diferente ao longo do
arquivo, mas tudo precisa ter uma padronização); já traduzi alguns
textos (apresentação de livros internacionais para divulgação), mas como
97,5% (chutando) dos livros são nacionais, não faço muita coisa nessa
área – é uma pena, porque adoro tradução.
De produção, faço a ponte entre autores e designers/diagramadores (o
editor cuida bastante dessa parte, mas sinto que aos poucos ele está
começando a dividir o trabalho comigo), verifico se o arquivo está de
acordo com o que o autor acha mais coerente (pensando bem, uma parte
disso é trabalho editorial, olha como não é tudo separado), verifico se a
capa está ok, se o ISBN (International Standard Book Number) – falarei
mais sobre isso depois – e o código de barras na quarta capa estão
corretos, faço cotação de gráficas e de papéis (o papel é comprado
separadamente de distribuidoras de papel, porque fica mais barato do que
comprar o papel da gráfica onde o livro será impresso – a maioria das
gráficas vende papel + serviços de impressão se o cliente quiser),
coloco tudo em um “comparativo” [de preços]. Quando o editor aprova a
compra de papéis e a contratação da gráfica (em geral, peço orçamento em
quatro gráficas e quatro distribuidoras de papel parceiras) – no
comparativo já indico quais os lugares com preços melhores –, entro em
contato com a gráfica, para avisar que enviarei os arquivos do livro
(capa e miolo) e também que os papéis da distribuidora serão entregues
lá em breve. Compro o papel (mesmo depois de ano fazendo isso, sempre
verifico milhões de vezes se o formato* e a gramatura** do papel estão
corretos, porque, se eu comprar errado, é prejuízo na certa – às vezes
preciso comprar TONELADAS de papel cujo total soma umas dez, vinte vezes
o meu salário!).
* formato do papel: há vários formatos de papel que as gráficas
utilizam, por exemplo, 66x96 cm – dependendo do formato do livro e da
capacidade da impressora, dá para imprimir um determinado número de
páginas nessas folhas de papel e quanto menor o formato do livro, mais
páginas dá para imprimir em cada folha.
** gramatura do papel: já notaram que existem livros com folhas mais
finas e outras mais grossas? Então, isso acontece porque existem várias
gramaturas de papel (isso sem falar nos vários tipos de papel). Em
geral, usamos a gramatura 90g/m2 para o miolo e 300g/m2
para a capa. Em geral, quanto menor a gramatura (quanto mais fino o
papel), mais barato o livro fica, porque o papel é vendido por peso e,
quanto menos peso, mais barato. Um dia queria produzir pelo menos um
daqueles livros bem vagabundos feitos com folha jornal e capa que parece
de revista para ter ideia de quanto fica – acho horríveis esses livros,
mas o custo de produção deve ser muito baixo.
Não basta comprar o papel e verificar se a nota fiscal está com preços
corretos e passar para o Departamento Financeiro, tem que registrar esse
papel em um site do governo, fazer o RECOPI (
aqui),
pois não há imposto para compra de papel para impressão de livros (é o
chamado “papel imune”), desde que você comprove. Parece que antes não
precisava registrar, mas como estamos no Brasil, as pessoas começaram a
comprar papel imune sem ser para impressão de livros, aí o governo
precisou burocratizar. Agora fica tudo registrado lá, de quem a editora
comprou papel e para que gráfica esse material foi, onde e quando os
livros foram entregues e em que notas fiscais consta tudo isso.
Em geral, os designers enviam os arquivos para a gráfica (se precisar,
eu faço isso), confirmo se estão ok, e a gráfica envia uma
plotter – que é uma versão impressa do livro, mas não exatamente como o livro acabado – para conferência e aprovação. Confiro a
plotter,
vejo se as cores da capa estão de acordo (a gráfica envia uma impressão
digital da capa, com as cores exatamente como serão impressas), assino
tudo, mostro para o editor, que dá uma olhada e confere a página de
créditos (ele deve ter pavor que saiam créditos errados!), aí peço para o
motoboy da gráfica retirar esse material aprovado. E aí é só aguardar a
data de entrega dos livros.
Quando o livro tem ilustrações, em geral, o editor e o(a) designer
acertam os detalhes, por enquanto não preciso me preocupar com isso.
Quando o livro tem fotos (na capa e/ou no miolo), entro em contato com
os bancos de imagens e negocio os direitos de publicação das fotos,
previamente selecionadas pelos designers – quando tem fotos no miolo dá
MUITO trabalho! Choro bastante no preço, porque é caríssimo, mas o livro
precisa ficar bonito. Quando o editor aprova o orçamento das fotos,
fecho negócio, providencio documentos necessários (a Getty Images, por
exemplo, tem um formulário que precisa ser preenchido, carimbado e
assinado), os bancos de imagens enviam as fotos em alta resolução,
confiro, uma por uma, peço os créditos, envio tudo para os designers... e
depois tem que conferir se foi tudo inserido no arquivo do livro com os
devidos créditos. Mas muitos livros não têm imagens no miolo porque
encarece demais o preço final do livro.
Quando o livro tem CD de áudio (lembrando que a linha de publicação da
editora é de livros para ensino/aprendizado de idiomas), o autor envia o
script, o estúdio envia um
orçamento, agendo a gravação com os locutores, vejo se todos podem
gravar em um determinado dia e horário, vejo se o estúdio está
disponível, confirmo tudo, imprimo 'x' vias do
script,
dependendo do número de locutores, faço os contratos dos locutores,
combino com o responsável pela gravação/estúdio para ele passar na
editora para pegar (
scripts e
contratos, assim os locutores podem assinar no dia da gravação). Depois
da gravação, um (ou dois) CD é masterizado, gerando a “master” (CD a
partir do qual as cópias serão feitas). Preparo contrato de duplicação
de CDs, vou pro cartório reconhecer assinatura do editor, depois envio
isso e a(s) master(s) para a empresa que vai duplicar/copiar os CDs.
Nisso também já envio, por e-mail, o pedido (com todos os dados – número
de cópias, endereço da gráfica onde os CDs devem ser entregues, etc.) e
o arquivo com a arte final para o rótulo do CD (aquela “estampa” que
aparece na parte de cima de CDs e DVDs), feito pelo(a) mesmo(a) designer
responsável pelo projeto gráfico da capa e do miolo.
Pronto, aí, quando os CDs ficam prontos, a gráfica anexa na parte
interna dos livros, faz o “shrink” (coloca aquele plástico para proteger
o livro) e entrega assim, com o CD já anexado.
Fora isso, tem também uma parte “administrativa”, que é a parte dos
entediantes relatórios. Faz parte da rotina de trabalho. Coloco dados de
custos, vendas etc. em planilhas mensais. Hoje em dia, mais ou menos
mensais, porque o editor sempre me lembra que a produção dos livros é
mais importante e que os relatórios não são prioridade – então, faço
quando dá, mas sei que são importantes para dar uma visão geral dos
custos e das vendas.
Em meio a tudo isso, responder e-mails importantes e desimportantes,
atender telefone, ir aos correios, organizar pastas com documentos e
relatórios de cada livro e fazer compras em geral. E ser simpática com
todo mundo que entra em contato com a editora, mesmo quando a pessoa só
quer jogar conversa fora e tenho vontade de falar “pelamordedeus, me
deixa trabalhar!”.
Quando o livro impresso fica pronto, recebo cópias na editora e peço
para uma colega da distribuidora (onde ficam armazenados os livros para
venda) enviar cópias para os designers que trabalharam naquele
determinado livro. Essa é a parte final que encerra o ciclo todo.
Quando se trata de uma reimpressão (o livro já foi impresso uma vez,
tudo foi comprado e o estoque precisa ser reposto), é um pouco mais
simples porque os arquivos do livro já estão prontos – ou seja, todos os
detalhes do livro foram verificados anteriormente –, só precisa alterar
uma informação ou outra (o designer que trabalhou no livro acerta
rapidamente o arquivo e também confiro rápido), faço as cotações de
gráfica e papel (e solicito CDs, se for o caso), e o diretor aprovando
os orçamentos, é só avisar a gráfica que os arquivos e o papel para
impressão serão enviados.
ISBN (International Standard Book Number, número de registro
internacional do livro – cada livro precisa ter um, geralmente aparece
junto do código de barras na contracapa do livro) e ficha catalográfica.
A parte de solicitar/comprar o ISBN é a mais burral de todo o processo.
Há quase um ano a Fundação Biblioteca Nacional (
http://www.isbn.bn.br/),
no Rio, que é responsável pelo controle e venda de ISBN, está falando
que o sistema será feito online. Ahã. Enquanto isso, é preciso fazer
assim: comprar antecipadamente os ISBNs, fazendo depósito no Santander. É
preciso enviar por correio o comprovante original (como algumas
editoras estavam dando calote, enviando cópias de recibo, comprovantes
de depósito por envelope e
não
depositando o dinheiro no envelope etc., agora solicitam o comprovante
original e pedem para ficarmos com uma cópia, no caso de extravio). A
venda só é possível se a editora comprovar que 80% dos ISBNs vendidos
anteriormente foram usados: é preciso preencher uma ficha padrão deles
para cada livro (título, número de páginas, ISBN etc) e anexar a folha
de rosto (aquela página inicial do livro, com nome do autor, título e
editora, às vezes, a cidade e o ano também), imprimir tudo e enviar por
correio (me sinto na Idade da Pedra). Se não enviar essas fichas, além
das folhas de rosto, eles não liberam a venda de mais ISBNs. Mais ou
menos de quatro em quatro meses, preciso passar por isso. “Tanta louça
pra lavar e eu aqui preenchendo essas merdas de fichas, sendo que tudo
poderia ser feito online, se houvesse um sistema online - muito mais
rápido e prático!” Passada a revolta e recebendo os ISBNs, fico bem.
Para solicitar a ficha catalográfica (em geral é incluída na página de créditos, no verso da folha de rosto) no
site da CBL
(Câmara Brasileira do Livro), em São Paulo, é preciso ter o ISBN do
livro. Entro com o login e senha da editora, preencho dados do livro,
ISBN (vou dando aos livros os números de ISBN comprados), anexo as
primeiras 20 páginas do livro diagramado em arquivo PDF no pedido e
solicito - tudo online. Recebo confirmação de solicitação por e-mail.
Depois de alguns dias, recebo a ficha catalográfica, confiro (uma vez
não sei COMO colocaram o nome de uma editora concorrente na ficha
catalográfica! Haha, mas foi a única vez. Em geral, o pessoal da CBL é
bem cuidadoso e, em caso de dúvida, ligam para confirmar dados do livro
antes de emitir a ficha). Tudo bem prático e fácil, diferentemente do
que acontece para comprar ISBNs.
Uma coisa óbvia que só percebi quando fui trabalhar na editora atual: se
o autor é bem organizado, o livro fica pronto muito rápido, não tem
muitos vai e vens de e-mails, acertos, indecisões; se o
designer/diagramador tem uma boa formação e entende do que faz, além de
ter cultural geral e senso crítico, há uma boa chance de o livro chegar a
ficar perfeito ou muito perto disso. Nos últimos meses, tivemos alguns
problemas com autores enrolados, o que também me sobrecarregou e cansou.
Se o autor não entrega o arquivo acertado (muito próximo do que ele
quer impresso no livro) para o designer e depois fica pedindo milhares
de alterações, a vida fica bem difícil. Sem brincadeira, um autor enviou
CINQUENTA páginas com pedido de alterações; a designer deve ter ficado
injuriada – e eu me estressei um pouco porque tive de verificar se todas
as alterações foram feitas no arquivo do livro, um puta tempo perdido,
enquanto outras coisas importantes ficaram esperando; explicando melhor:
o autor muito provavelmente enviou o arquivo sem uma última lida para
ver se havia erros de digitação ou as coisas que ele queria padronizar
ou alterar. Mas sorte que esse tipo de autor não é regra na casa. Se
fosse, eu certamente estaria procurando outra editora para trabalhar;
sério, é muito estressante trabalhar com gente assim, que parece que não
leva as coisas a sério. Depois desse ocorrido, o editor passou um
“sermão elegante” e o livro seguinte desse mesmo autor já foi menos
estressante (teve bem menos correções).
Talvez no futuro eu consiga focar minha carreira apenas no departamento
editorial (como na primeira editora onde trabalhei), sem precisar
colocar a mão na produção, mas essa fase está sendo muito importante;
acho que eu precisava/preciso ter essa noção de todo o processo de
publicação do livro.
São muitas coisas, muitos detalhes. Às vezes acontecem algumas falhas,
daí precisa corrigir na reimpressão seguinte. Não é nenhum fim do mundo,
mas me sinto péssima quando descubro um detalhe, um erro, que só depois
que o livro está impresso. Coisas que só amantes de livros sabem o que
é.