sábado, 1 de fevereiro de 2014

O que é Editora - Wolfgang Knapp



Para quem se interessa pelo mundo editorial ou por publicação de livros, recomendo O que é editora, escrito pelo austríaco radicado no Brasil Wolfgang Knapp e publicado pela editora Brasiliense na coleção O que é.

Apesar de a 2ª edição ter sido publicada em 1992, há mais de vinte anos, e algumas informações estarem desatualizadas ou incompletas (devido ao avanço tecnológico pelo qual a área editorial tem passado - tanto em relação a impressoras, gráficas quanto ao relativamente recente lançamento de livros eletrônicos), o livro vale muito a pena por apresentar características e procedimentos que a maioria das editoras ainda adota hoje.

Dois pontos que mais me chamaram a atenção: um é o fato de o autor falar um pouco sobre o produção gráfica e o outro, sobre viabilidade financeira de publicação de livros. Em um determinado ponto, ele diz que o editor deve ter conhecimentos técnicos de produção gráfica, ou seja, conhecer tipos e formatos de papel e o processo de impressão das gráficas (coisa que o editor com quem trabalho sempre diz que preciso aprimorar, mas é um pouco difícil, pois não tenho essa vivência de visitar e acompanhar os procedimentos em gráficas - sei que em editoras maiores há uma pessoa só para cuidar da qualidade da impressão, que visita as gráficas fornecedoras e acompanha a impressão, mas não é o meu caso). Sobre a viabilidade financeira de publicação, lembrei de algumas pessoas que querem ser editoras e muito provavelmente nunca ouviram falar de "viabilidade financeira de publicação" e talvez nem saibam que isso é necessário para planejar melhor e minimizar os prejuízos em potencial. Uma dica que dou a essas pessoas é que elas precisam ler e se informar mais sobre o negócio que pretendem abrir (sim, porque, afinal de contas, uma editora é uma empresa, um negócio passível de ter lucros e prejuízos e que tem várias despesas).

Procurei informações sobre o autor na internet, mas não encontrei. Não sei se ele ainda está vivo (na minibiografia está escrito que ele nasceu em 1933) e também não sei se ele escreveu mais livros sobre a área editorial. No livro também tem a informação de que ele queria ser agrônomo, mas, como a saúde não permitiu, estudou editoração e trabalhou como editor nos seguinte países: Alemanha, Áustria, França e Espanha, além de ter adquirido a própria editora no Brasil, a E.P.U. (Editora Pedagógica e Universitária) - pelo que pesquisei, a E.P.U. foi comprada pelo grupo GEN em 2011.
 
Esquematicamente, a função do editor pode ser apresentada assim: Editar livros é uma atividade quase mais maluca que escrevê-los. O editor precisa de uma vasta bagagem cultural. Mas dificilmente será um acadêmico. Muito menos um especialista, a não ser como hobby. [...]

O editor participa intensamente da vida cultural e intelectual. Incentiva a elaboração de manuscritos, a sistematização de ideias, a transformação de palpites em projetos. É um mensageiro entre produtos e consumidores de bens culturais.

Com esse post, inauguro uma nova tag no blog, "livros sobre livros". Como comecei a ler livros sobre mercado e produção editorial, e livros sobre livros em geral, para escrever meu TCC, aos poucos vou postando dicas dos livros mais interessantes. Quando terminar meu TCC, postarei a bibliografia completa.
Publicado originalmente em 15/09/2013 aqui.
 

Então você quer ser escritor?

Um dia o amigo Cristiano (@sehn100) tuitou esse vídeo:


Eu dei muita risada porque muitas das piadas têm fundamento. E quem trabalha ou já trabalhou em editora sabe disso.

Eu só conhecia este outro, com o mesmo assunto, que é um vídeo promocional de um livro de contos do Miguel Sanches Neto - que eu não conheço, não li ainda:


Resolvi escrever um pouco sobre isso, também, porque andei revisando uns livros nacionais muito ruins (pleonasmo) e isso me deixou meia deprimida, meia revoltada. Parece prepotência (eu sei que é), porque não sou perfeita, mas não acho normal "escritores" usarem vírgula entre sujeito e predicado, terem milhares de erros ortográficos ou começarem um capítulo escrevendo na terceira pessoa e, alguns parágrafos depois, mudarem para a primeira pessoa (sem que isso signifique subversão ou algum outro tipo criativo de lidar com a estrutura textual), situar a história em uma cidade no sul do Brasil e os personagens nativos usarem "você" em diálogos, quando, na realidade, usam "tu", etc, etc. Fico com a impressão de que a literatura nacional não vai progredir nunca porque tem muita gente escrevendo esse tipo de coisa e pouquíssima gente escrevendo algo que preste.

Para mim, alguns pontos nisso tudo são um mistério:

1. Se as pessoas gostam de escrever, então por que não procuram melhorar a escrita? É falta de direcionamento? É preguiça?
2. Por que editores aprovam originais totalmente trash, tanto em relação a conteúdo quanto à estrutura (problemas em todos os níveis, um livro que já começa todo errado)?
3. O que motiva as pessoas a escreverem da forma que escrevem (em geral, mal, muito mal) e achar que merecem ter seus originais publicados? Ingenuidade? Falta de senso crítico? Ego?
4. Será que não é hora de o Ministério da Educação começar a investir em oficinas literárias grátis a futuros jovens escritores, ministradas por bons escritores que já estão no mercado, assim como está investindo em feiras literárias?
5. Por que as próprias editoras não investem em potenciais escritores? Poderiam chamar escritores experientes para ministrar oficinas literárias, cobrando uma taxa dos alunos, e, depois, quem tivesse melhor desempenho teria o livro publicado. Seria uma forma mais racional de pré-selecionar originais.

Fica uma dica preciosíssima que descobri há pouco tempo, o site da editora Laura Bacellar: http://www.escrevaseulivro.com.br. No site ela já escreveu quase tudo que pensei em escrever neste post e muito melhor do que eu escreveria, tanto por ter bemm mais experiência no meio editorial quanto pelo estilo de escrever, então não me estenderei tanto. Mas gostaria de compartilhar algumas dicas:

1. Escreva o original e depois entre em contato com a editora - não adianta entrar em contato e dizer: "Estou pensando em escrever um livro" (sem material, não tem como o pessoal responsável - editor/equipe editorial - avaliar nada);

2. Envie o original para editoras que tenham uma linha editorial condizente com o original que você escreveu; não adianta enviar um romance para uma editora que só publica livros técnicos e vice-versa (obs: editoras, em geral, não devolvem originais impressos, então, reserve um dinheiro para gastar com cópias; algumas editoras aceitam receber originais em arquivo, por e-mail; alguns originais, como os de poesia, são mais difíceis de ser aceitos, mesmo quando bem escritos, por uma questão comercial - quem compra poesia hoje em dia?);

3. Digite o texto em Word, com uma fonte legível e preta (cause uma boa impressão e não digite em Comic Sans verde e rosa - uma vez recebi uma tradução com trechos digitados dessa forma e achei que era uma "pegadinha" da tradutora, porque nenhum profissional em sã consciência faria isso... mas vi que faz);

4. Procure escrever conforme as regras do Novo Acordo Ortográfico, use o corretor ortográfico do Word e também consulte dicionários e manuais - alguns dos que recomendo:
* VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), da ABL (Academia Brasileira de Letras) - a versão on-line não abrange todas as palavras e a versão impressa tem erros, então consulte a lista de correção aqui
* Houaiss
* Aurélio
* Dicionário Prático de Regência Verbal (Pedro Celso Luft, editora Ática)
* Dicionário Prático de Regência Nominal (Pedro Celso Luft, editora Ática)
* Manual de redação e estilo (publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo)
* Manual da Redação (publicado pelo jornal Folha de S.Paulo)
Gramáticas:
* Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lindley Cintra e Celso Cunha, editora Lexikon)
* Moderna Gramática Portuguesa (Evanildo Bechara, editora Nova Fronteira)

5. Se achar que o livro está "ruim", além de pedir para familiares, parentes, amigos e conhecidos lerem, busque profissionais que possam fazer leitura e análise críticas do material;

6. Não se pode começar escrevendo um parágrafo em primeira pessoa ("Eu fui caminhar perto da lagoa...") e, do nada, no parágrafo seguinte, mudar para a terceira pessoa ("Então ele sentou na grama e pensou...");

7. Não escreva diálogos intermináveis nem passagens com descrições infinitas se eles não forem imprescindíveis para a obra - é muito cansativo e conheço pessoas que pulam a leitura de trechos assim;

8. Evite redundâncias desnecessárias (pleonasmos), como, por exemplo, "chorou lágrimas" (se chorou, só pode ser lágrimas), "deu um tapa com a mão" (não tem como dar um tapa com o pé), "jogou a peteca e ela caiu para baixo" (não tem como cair para cima);

9. Procure ambientar as histórias em lugares que conheça bem para não cometer deslizes, como, por exemplo, usar gírias/modos de falar que não pertencem àquela determinada cidade ou região (quando li personagens do sul falando "você" num livro, tive o mesmo estranhamento que teria se a história se passasse em São Paulo e todos os paulistanos falassem "tu" - ok que se trata de ficção, mas isso pode virar motivo de piada e descrédito para os leitores depois);

10. Não escreva para tentar convencer as pessoas a pensarem como você (histórias com discursos políticos, ideias nazistas, fundamentalismo religioso), escreva para ampliar a consciência das pessoas e nunca estreitá-la [isso é uma visão pessoal, não tenho fundamento teórico - para mim, um dos papéis da literatura é esse: ampliar];

11. Caso o original seja aprovado, procure não ficar exigindo que a editora faça a diagramação e a capa do jeito que você quer - existem profissionais especializados nisso e que serão pagos para fazer isso (caso ache que tais e tais editoras fazem um trabalho ruim, melhor nem enviar o original para elas);

12. O acerto de direitos autorais ($), em geral, não é feito mensalmente - algumas editoras fazem isso semestralmente, outras, anualmente, e isso precisa estar especificado no contrato (leia atentamente o contrato e esclareça todas as dúvidas ANTES de assinar e peça uma via assinada pela editora);

13. Escreva da forma mais coerente e clara que conseguir - originais, em geral, passam por revisões, mas os revisores não têm obrigação de reescrever o seu texto e deixá-lo inteligível (se cada um fizer a sua parte, o mundo vai ser muito melhor tempo será poupado e desgastes, evitados, e seu livro vai sair mais rápido);

14. Leia (tente ler) sempre e muito todo tipo de livro.

E tendo dito isso, não tenho mais nada a dizer.

Boa sorte e bons livros.

Publicado originalmente em 07/08/2011 aqui. 

O Romance - James A. Michener


Já faz um tempo que terminei de ler esse livro e queria escrever sobre ele. Pelo título, eu nunca imaginaria se tratar de um romance sobre o meio editorial. O crédito pela indicação e empréstimo do livro vai para o sr. J. B., com quem trabalho. 

Se eu pudesse escolher, só trabalharia com editores que gostam de ler e leem. Não consigo levar muito a sério editores de livros que não leem.

O livro foi lançado no Brasil pela editora Rocco em 1992, ou seja, há vinte anos, mas o conteúdo do romance é muito atual, principalmente a questão da venda de direitos autorais para outros países, que movimenta muito dinheiro. Para quem não sabe, funciona assim: a editora que publica um livro detém os direitos de publicação no país de origem e, em geral, em todos os outros também, se ele “estoura” e vira best-seller (ou mesmo antes, dependendo da reputação do autor), editoras de outros países querem publicar, então é preciso negociar: por quanto a editora venderá os direitos de publicação? Depois da negociação - às vezes envolvendo várias editoras que querem publicar a tradução -, a editora estrangeira paga um adiantamento e, posteriormente, mais uma porcentagem de acordo com a venda dos livros, sendo que uma parte disso a editora “original” repassa para o autor. Por exemplo, o acordo é fechado em R$ 50 mil (estou chutando um valor para um livro best-seller) em adiantamento; quando a editora atinge a marca de X exemplares vendidos e esses R$ 50 mil já tiverem sido quitados em vendas, a editora passa a pagar uma porcentagem sobre a venda semestral ou anual dos livros, dependendo do que foi acordado. Enfim, fiquei surpresa de saber que isso já existia nos anos 90, e provavelmente existiu desde sempre!

O Romance é dividido em quatro partes, narradas em primeira pessoa pelos seguintes personagens:

1. O escritor – Lukas Yoder
2. A editora de texto – Yvonne Marmelle
3. O crítico – Karl Streibert
4. A leitora – Jane Garland

Lukas Yoder é o escritor que escreve romances baseados na cultura e nos costumes de uma comunidade de imigrantes alemães do Estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos; ele fracassa em venda nos primeiros trabalhos, mas com a ajuda da editora Yvonne Marmelle, consegue atingir o sucesso depois de anos de persistência. Sua esposa o apoia e sempre apoiou – foi ela quem trabalhou como professora para sustentar a casa enquanto ele escrevia.

Yvonne Marmelle começou a gostar de ler ao ser incentivada por um tio, ainda criança. Teve de deixar a faculdade depois do primeiro ano, pois o pai perdeu o emprego e ela precisava trabalhar e ajudar a pagar as contas da casa. Foi encaminhada pelo pai para trabalhar em uma fábrica, mas, ao chegar no bairro onde a tal fábrica funcionava, decidiu que não era aquilo que ela queria para a vida dela e se dirigiu para Avenida Madison, em Nova York, onde funcionavam (talvez ainda funcionem?) várias editoras de livros. Lá ela conseguiu um emprego de datilógrafa na editora Kinetic, onde foi crescendo, até se tornar editora. Na vida pessoal, ela tem uma história interessante com um escritor meio vagabundo, que se acha um escritor maravilhoso, mas que não consegue escrever nada, fica lendo jornal e bebendo enquanto Yvonne se mata de trabalhar na editora.

Karl Streibert é o crítico de “alta literatura” e professor universitário, discípulo de um famoso professor britânico, com quem tem um affair [na verdade, é mais que isso, é uma ligação de “amor intelectual”], que luta para escrever um romance, enquanto descobre talentos literários entre seus alunos. Na vida pessoal, seu mentor morre de Aids, e, na vida profissional, ele aceita o fato de não ser um bom escritor, embora consiga fazer análises brilhantes do trabalho de outras pessoas.
Jane Garland é a leitora cujo neto escreve brilhantes manuscritos. Ela é viúva e, com a herança que o marido milionário deixou, ajuda a patrocinar atividades na faculdade onde Karl Streibert leciona e atividades culturais em geral para a comunidade da cidade onde mora. Leitora ávida, gosta dos romances de Lukas Yoder, com quem tem contato pessoal, mas o neto defende que eles não têm qualidade – visão compartilhada por Streibert.

  Capa do livro em inglês. Achei por R$ 5,50 na Estante Virtual!

Em meio a tramas pessoais e profissionais dos protagonistas, vários detalhes do meio editorial são revelados: a questão da venda de direitos autorais, como já citei; o trabalho de seleção de original para publicação e acompanhamento do texto durante a produção do livro (Yvonne Marmelle indica vários pontos a ser melhorados nos romances de Yoder e ele trabalha com afinco neles); best-sellers de qualidade duvidosa precisam ser publicados, pois sustentam financeiramente a editora (como as pessoas compram muito, a editora arrecada um bom lucro e pode investir em novos, e talvez melhores, autores); a dificuldade para lançar livros e sobreviver sendo autor; o poder da crítica, que pode tanto alavancar a carreira de um escritor como destrui-la; a compra de editoras pequenas por grandes conglomerados editoriais multinacionais (isso já acontecia no começo dos anos 90!, fiquei muito surpresa), entre várias outras questões.

Leitura obrigatória para quem trabalha no meio!

Agora estou lendo, entre vários outros (porque não consigo ler só um de cada vez, é muita hiperatividade mental...), Ser Feliz®, do canadense Will Ferguson, sobre um editor que lança um livro de autoajuda que vira best-seller: todos mudam radicalmente para melhor e o que importa é ser feliz e fazer do mundo um lugar melhor para todos. É de um sarcasmo fenomenal. Depois escreverei sobre ele aqui, mas já deixo a dica.


Publicado originalmente em 26/08/2012 aqui.

Dicas para escrever e publicar seu livro



Descobri esse livro meio que por acaso e acabei encomendando pela Estante Virtual. Foi escrito pela editora Laura Bacellar, que dá cursos sobre edição na Universidade do Livro e também idealizou o site homônimo: Escreva seu livro.

Tenho ideia para escrever três histórias, que talvez se desdobrem em romances, por isso achei que o livro seria válido. Mas acho que só conseguirei trabalhar nesses projetos/treinos de escrita depois que terminar de escrever meu TCC (que será um plano de negócios para abertura de uma editora apenas de livros digitais), ou seja, só no segundo semestre de 2014.

Conforme fui lendo o livro, vi que ele é bom não só para autores, principalmente os iniciantes, mas também para pessoas que trabalham há pouco tempo no mercado editorial ou que pretendem trabalhar nele. Além de ser um ótimo guia para editores indicarem a autores e possíveis autores da casa. Aliás, quando eu escrever o "manual" com informações para os autores lá da editora [assim que eu arranjar um tempo], vou indicar esse livro, pois é muito esclarecedor, prático e completo.

O livro abrange tudo que envolve a produção de um livro: dicas para organizar a escrita, o que fazer no caso de ter uma ótima ideia, mas não ser capaz de colocá-la no papel (contratação de ghost-writers), o processo de edição do livro (por exemplo, como adaptar uma tese para um formato menos acadêmico e, assim, ter mais chances de ser publicado por uma editora comercial), como funciona o mercado de livros, como submeter um original de forma profissional a editoras, procedimentos para divulgação e análise do contrato com a editora. As dicas de etiqueta também são ótimas - como autores iniciantes não devem se comportar de jeito nenhum. É tudo verdade, porque já vi alguns dos comportamentos citados, como autores que ligam quase todo dia para saber se o original foi aprovado ou não, sendo que estamos todos sobrecarregados com outras coisas mais importantes ou urgentes para resolver.

Ressalto especialmente as partes em que a Laura explica sobre o mercado editorial do ponto de vista econômico, que, muitas vezes, nem deve passar pela cabeça dos autores.

Editoras também são empresas que precisam ter lucro para sobreviver. Não vivem de luz e também precisam pagar contas fixas, como água, luz, funcionários, custos de produção. A maioria dos autores deve pensar: "a editora fatura alto às minhas custas, pois só me paga 7% de direitos autorais", e o que não conseguem enxergar é que, antes de tudo, o editor/a editora fez um investimento, uma aposta, no livro deles. É um gasto de vários mil reais antecipados (com revisores, diagramadores, gráfica e papel, entre outros itens menores) que serão pagos, em média, em 60 dias, sendo que a tiragem do livro pode demorar anos para ser vendida e, dependendo do caso, o custo do investimento nunca é coberto. O que geralmente acontece é que alguns títulos vendem muito bem e sustentam o negócio/possibilitam que novos títulos sejam lançados. E, além dos custos de produção, também existe o custo da distribuição dos livros para as livrarias, que, em geral, é feita por consignação: a editora entra em contato com as livrarias e envia determinados títulos que elas encomendam; caso os livros sejam vendidos, o dinheiro é repassado para a editora dentro de um prazo combinado, caso contrário, os livros são devolvidos [para a editora] e quem paga o frete é a editora. 

Destaco o trecho abaixo, que achei muito esclarecedor:

"Editores publicam livros por algumas razões, de preferência todas ao mesmo tempo:

- porque vendem;
- porque dão prestígio;
- porque dão visibilidade à editora;
- porque estão de acordo com suas ideias."

Ou seja, a opção de a editora publicar ou não o livro, depende, principalmente se haverá público-alvo para aquele tipo de publicação e se o livro enriquecerá o catálogo da editora, não adianta o autor ficar insistindo e tentando convencer o editor a publicar algo em que as pessoas não têm interesse em comprar ou que pode "manchar" a imagem da editora por alguma razão.

A edição que tenho do Escreva seu livro é de 2001 e talvez tenha sido atualizada, pois algumas (poucas) coisas sofreram alteração desde então, mas isso não interfere no que a autora quis passar (por exemplo, as gráficas não usam mais fotolito para publicações atuais - basta enviar um arquivo em PDF do livro e outro arquivo em PDF da capa; a montagem dos "cadernos" que compõem o livro é feita digitalmente).
Se todo editor indicar este livro para futuros autores iniciantes, tenho certeza de que a probabilidade de ter problemas durante o processo de publicação será muito menor.

Recomendo muito para quem pretende publicar um livro por uma editora comercial ou mesmo se autopublicar.

Originalmente publicado em 01/07/2013 aqui.

Então você quer ser editor(a) de livros?

 Foto tirada daqui.

Até começar a trabalhar em uma editora, nunca havia pensado em ser editora de livros. E nem sei se alguém, quando criança, tem esse tipo de aspiração. Nunca vi crianças dizendo: "Quando eu crescer, quero ser editor(a) de livros". Mas, de certa forma, sempre tive vontade de trabalhar com livros - só que minha meta era mais trabalhar com texto (escrever, traduzir, revisar) e ser boa, uma das melhores, nisso, sendo que "a glória", meu ápice profissional, seria traduzir livros da área de saúde (por isso fui estudar odontologia por um tempo; não foi uma loucura repentina) e literários, especialmente de literatura japonesa, direto do japonês - e de literatura tcheca, direto do tcheco, desde que comecei a estudar o idioma há alguns anos.
Hoje de manhã revi o filme As horas, em que a Meryl Streep faz o papel de uma editora nova-iorquina, e lembro que, quando o vi pela primeira vez, fiquei encantada com as cenas em que os originais ou provas de livros, impressos em papel, aparecem empilhados em uma sala-escritório da casa dela (hoje em dia várias editoras devem aceitar o original em arquivo). São pilhas de papéis com anotações e post-its, como acontece na vida real. Fiquei meio fascinada com a possibilidade de levar esses livros ainda em gestação para casa e ter o privilégio de lê-los antes de todo mundo. Mesmo tendo visto o filme várias vezes, esse detalhe, que para muitos deve passar batido, continua me chamando a atenção. 
Escrevo este post meio que pretensamente, porque ainda não sou "editora". Talvez um dia me torne uma, estou em fase de aprendizados eternos e, pelo rumo que as coisas estão tomando e pelo rumo que estou dando às coisas, é isso que serei quando crescer.
Quando fui trabalhar em uma editora pela primeira vez, em 2009, fazia um trabalho que é o sonho de muita gente: coordenava o departamento de tradução. Selecionava títulos para possível publicação (ou seja, solicitava os títulos para editoras estrangeiras e lia pelo menos uma parte deles para ver se o conteúdo tinha a ver com a linha de publicação da editora), selecionava tradutores free-lance para traduzir os livros a ser publicados, avaliava a qualidade da tradução, selecionava revisores de tradução, além de traduzir e revisar alguns títulos também - entre outras várias atividades que não eram as principais. Eu era apaixonada por esse trabalho, mas, por motivos pessoais, migrei para uma outra editora no ano seguinte, onde fiquei apenas alguns meses, até chegar a esta terceira onde trabalho atualmente.
Nas duas primeiras editoras, eu tinha noção de partes do processo e, nessa terceira, por ser uma editora pequena, participo de todo o processo de publicação (desde ver o original do livro em Word, passando pelo trabalho com o texto - às vezes edito e reviso alguns títulos, às vezes elaboro textos para ser incluídos em capas ou em campanhas de divulgação -, agendamento de locutores para gravar os CDs de áudio que acompanham os livros, até a contratação de serviços gráficos e entrega dos livros). E às vezes me irrito com vendedores de serviços gráficos e de papel - mas isso daria um outro post.
Ao longo da minha recente caminhada pelo meio editorial, me dei conta de que ser uma editora, aliás, ser uma BOA editora, é um processo muito árduo e lento. Diferentemente de várias outras áreas, em que se pode focar e se especializar em algo e ser bom naquilo, ser uma boa editora significa ter uma boa noção de várias áreas.
Antes de continuar, um parênteses: sou extremamente grata por ter tido/ter a chance de trabalhar internamente em uma editora. Tenho certeza absoluta de que sou uma tradutora e revisora muito melhor por conhecer em detalhes todo o processo de publicação de livros. Também sou grata por ter a chance de trabalhar com um editor extremamente profissional, com quase a minha idade apenas de trabalho na área, e que me ensina muito.
Continuando, para mim, com base em experiências e observação, ser uma boa editora significa:
1. gostar de ler e ler muito sobre tudo (ter sido uma boa leitora desde criança ajuda, pois quando somos mais jovens temos mais tempo e menos preconceitos);
2. ter um excelente domínio da língua portuguesa;
3. ter domínio de, no mínimo, uma língua estrangeira (atualmente, acho que saber inglês é um bom começo); dominar outras línguas -  quanto mais, melhor -, pois facilita muito a vida profissional, especialmente no momento de avaliar originais estrangeiros, selecionar tradutores e negociar os direitos de publicação com editoras internacionais;
4. ter cultura geral (não é tão difícil se o item 1 for verdadeiro);
5. saber avaliar "racionalmente" um original (ou seja, pesquisar se e quantos títulos semelhantes já foram lançados por outras editoras, o que os leitores comentam sobre eles e se há público e mercado para aquele determinado livro);
6. tentar descobrir em que categoria o original se encaixa: a) o livro é bom e há um público-alvo que certamente o compraria; b) o livro é bom, mas não há público para ele/o público é extremamente restrito; c) o livro é ruim, mas provavelmente há um público-alvo numeroso e ansioso para consumi-lo; d) o livro é ruim, mas o autor é famoso e tem uma legião de fãs (bastando "apenas" um bom trabalho de edição); e)  o livro é ruim e provavelmente não haveria público para ele;
7. conciliar, de forma realista, o orçamento disponível com o que se pretende publicar (não é possível publicar um livro colorido, com um bom papel e capa dura com um baixo orçamento, por exemplo);
8. ter boas habilidades interpessoais e um ótimo jogo de cintura com os autores, sobretudo os chatos;
9. ter noções de design gráfico - ainda que editores, em geral, não sejam os responsáveis pelo projeto do livro (quando são definidos o formato do livro, as cores em que será impresso, se haverá ilustrações etc.), é preciso ter alguns conhecimentos para poder avaliar o trabalho de possíveis funcionários ou colaboradores da área (hoje em dia, para mim, é nítida a diferença entre bons designers e pessoas que fizeram um curso de fim de semana e se dizem designers/capistas - e isso importa muito, porque pode ter um impacto direto na venda do livro);
10. ter noções de marketing ajuda a impulsionar a divulgação do livro para o público-alvo e também a avaliar se as ações do departamento de marketing estão sendo coerentes com as práticas do mercado, público-alvo e perfil da editora;
11. estar atenta aos mercados nacional e internacional e estar aberta às inovações (redes sociais, concorrência, evolução/flutuações do mercado editorial, e-books, expectativas do público que consome os livros publicados pela editora...);
12. entender, mesmo que sucintamente, como funcionam o departamento de vendas e o departamento financeiro;

[Três outros itens de que lembrei e incluí, depois de ter publicado este post:]

13. ter feeling em relação a que título(s) publicar (intuição de que aquele conteúdo vai ser bom ou agradar uma boa parte do público-alvo);

14. ter noções de direitos autorais;

15. saber como planejar o todo antes de dar início ao processo de publicação e ter uma visão geral de como todos os itens anteriores estão interligados.
Tendo isso em mente, às vezes me angustio porque não sei quantos anos levarei para ter domínio sobre a maioria dos itens que listei. A única coisa que posso afirmar atualmente é que domino o trabalho com texto, mas sei que esse também será sempre um aprendizado constante.

No fim, espero que tudo que estou buscando aprender e tentando aprimorar valha a pena. Sempre vale a pena quando a alma não é pequena, não é mesmo? :)


Leia também: O que faz uma assistente editorial? ou Libros nuevos

Originalmente publicado em 24/02/2013 nesse meu outro blogue.

O que faz uma assistente editorial?

              Enriquetta by Liniers (in Macanudo #2 - 
            Ediciones de La Flor, Buenos Aires, Argentina)

Desde o começo do ano, o ritmo de trabalho na editora tem sido puxado. Março foi o mês mais frenético desde que estou lá e abril também promete. Estou cansada. Não é uma reclamação, é só uma constatação. Teve um dia em que eu tinha milhares de coisas urgentes (às vezes TUDO é urgente) para resolver e o telefone não parava de tocar – pessoas ligando para saber como publicar um livro, como comprar livros, oferecendo todo tipo de produtos e serviços, autores, fornecedores – deu vontade de chorar. De cansaço. Mas como menina não chora, eu não chorei.

Na verdade mesmo, esse post vai ser sobre o que é (ser) uma assistente editorial, editora-assistente, editora júnior ou seja lá qual for a denominação que se dê para o cargo. Para quem não é do meio editorial, é um pouco difícil explicar, mas tentarei. Acho que nem meus pais sabem direito o que eu faço. Nem a maioria dos meus amigos que não trabalha nesse meio.

É assim: a assistente editorial de uma editora, em geral, faz um pouco de tudo. Durante esses últimos meses, fiquei pensando que um(a) assistente editorial precisa cuidar de muitos detalhes às vezes “invisíveis”, aparentemente simples, mas imprescindíveis, para que os livros saiam. Entre o autor entregar o arquivo em Word do livro dele, depois de o contrato de publicação ter sido firmado com a editora, até o livro impresso sair, existe um infinito de coisas.

Enquanto ouço o CD com a trilha sonora de um dos meus filmes preferidos, Lost in Translation, seguem detalhes.

Às vezes o(a) assistente editorial cuida apenas de assuntos editoriais (basicamente coordenação de tradução, preparação e revisão de texto, contratação de profissionais de texto, relacionamento com autores e colaboradores em geral – entre milhares de “coisinhas” que vão surgindo). Às vezes, cuida apenas da produção editorial (nesse caso, eu chamaria de “assistente de produção”, mas nem tudo é assim tão claro), é responsável por contratar designers gráficos, diagramadores, ilustradores, comprar direitos de imagem, caso o livro tenha fotos, solicitar ISBN, ficha catalográfica, escolher o tipo de papel em que a capa e o miolo do livro serão impressos, enfim, cuidar da parte "estética" do livro, para que o conteúdo (que já foi cuidado pelo departamento editorial) seja apresentado de forma atraente, para que milhares de leitores comprem o livro e a editora possa ganhar muito dinheiro (hoho). Às vezes, o(a) assistente editorial trabalha tanto com assuntos editoriais quanto de produção – é o meu caso no momento.

De editorial, reviso o que for necessário (a última revisão legal foi de um livro de culinária italiana – adoro italiano, adoro comida, adoro texto sobre comida!), às vezes confiro se o arquivo preparado (com marcas de revisão no Word) está ok para ser enviado para o(a) designer fazer o projeto gráfico/diagramar (mas, em geral, o editor encaminha o arquivo para o designer), verifico se as alterações que o autor pediu foram aplicadas no arquivo diagramado (arquivo que depois irá para a gráfica e a partir do qual a impressão será feita), se precisar, entro em contato com os autores para resolver pendências sobre texto, redijo textos de quarta capa (aquele resumo que tem na parte de trás do livro) e orelhas quando o próprio autor não faz isso, faço a remissão do sumário e verifico possíveis falhas de diagramação (às vezes acontecem alguns problemas, por exemplo, o tamanho da fonte fica diferente ao longo do arquivo, mas tudo precisa ter uma padronização); já traduzi alguns textos (apresentação de livros internacionais para divulgação), mas como 97,5% (chutando) dos livros são nacionais, não faço muita coisa nessa área – é uma pena, porque adoro tradução.

De produção, faço a ponte entre autores e designers/diagramadores (o editor cuida bastante dessa parte, mas sinto que aos poucos ele está começando a dividir o trabalho comigo), verifico se o arquivo está de acordo com o que o autor acha mais coerente (pensando bem, uma parte disso é trabalho editorial, olha como não é tudo separado), verifico se a capa está ok, se o ISBN (International Standard Book Number) – falarei mais sobre isso depois – e o código de barras na quarta capa estão corretos, faço cotação de gráficas e de papéis (o papel é comprado separadamente de distribuidoras de papel, porque fica mais barato do que comprar o papel da gráfica onde o livro será impresso – a maioria das gráficas vende papel + serviços de impressão se o cliente quiser), coloco tudo em um “comparativo” [de preços]. Quando o editor aprova a compra de papéis e a contratação da gráfica (em geral, peço orçamento em quatro gráficas e quatro distribuidoras de papel parceiras) – no comparativo já indico quais os lugares com preços melhores –, entro em contato com a gráfica, para avisar que enviarei os arquivos do livro (capa e miolo) e também que os papéis da distribuidora serão entregues lá em breve. Compro o papel (mesmo depois de ano fazendo isso, sempre verifico milhões de vezes se o formato* e a gramatura** do papel estão corretos, porque, se eu comprar errado, é prejuízo na certa – às vezes preciso comprar TONELADAS de papel cujo total soma umas dez, vinte vezes o meu salário!).

* formato do papel: há vários formatos de papel que as gráficas utilizam, por exemplo, 66x96 cm – dependendo do formato do livro e da capacidade da impressora, dá para imprimir um determinado número de páginas nessas folhas de papel e quanto menor o formato do livro, mais páginas dá para imprimir em cada folha.

** gramatura do papel: já notaram que existem livros com folhas mais finas e outras mais grossas? Então, isso acontece porque existem várias gramaturas de papel (isso sem falar nos vários tipos de papel). Em geral, usamos a gramatura 90g/m2 para o miolo e 300g/m2 para a capa. Em geral, quanto menor a gramatura (quanto mais fino o papel), mais barato o livro fica, porque o papel é vendido por peso e, quanto menos peso, mais barato. Um dia queria produzir pelo menos um daqueles livros bem vagabundos feitos com folha jornal e capa que parece de revista para ter ideia de quanto fica – acho horríveis esses livros, mas o custo de produção deve ser muito baixo.

Não basta comprar o papel e verificar se a nota fiscal está com preços corretos e passar para o Departamento Financeiro, tem que registrar esse papel em um site do governo, fazer o RECOPI (aqui), pois não há imposto para compra de papel para impressão de livros (é o chamado “papel imune”), desde que você comprove. Parece que antes não precisava registrar, mas como estamos no Brasil, as pessoas começaram a comprar papel imune sem ser para impressão de livros, aí o governo precisou burocratizar. Agora fica tudo registrado lá, de quem a editora comprou papel e para que gráfica esse material foi, onde e quando os livros foram entregues e em que notas fiscais consta tudo isso.

Em geral, os designers enviam os arquivos para a gráfica (se precisar, eu faço isso), confirmo se estão ok, e a gráfica envia uma plotter – que é uma versão impressa do livro, mas não exatamente como o livro acabado – para conferência e aprovação. Confiro a plotter, vejo se as cores da capa estão de acordo (a gráfica envia uma impressão digital da capa, com as cores exatamente como serão impressas), assino tudo, mostro para o editor, que dá uma olhada e confere a página de créditos (ele deve ter pavor que saiam créditos errados!), aí peço para o motoboy da gráfica retirar esse material aprovado. E aí é só aguardar a data de entrega dos livros.

Quando o livro tem ilustrações, em geral, o editor e o(a) designer acertam os detalhes, por enquanto não preciso me preocupar com isso. Quando o livro tem fotos (na capa e/ou no miolo), entro em contato com os bancos de imagens e negocio os direitos de publicação das fotos, previamente selecionadas pelos designers – quando tem fotos no miolo dá MUITO trabalho! Choro bastante no preço, porque é caríssimo, mas o livro precisa ficar bonito. Quando o editor aprova o orçamento das fotos, fecho negócio, providencio documentos necessários (a Getty Images, por exemplo, tem um formulário que precisa ser preenchido, carimbado e assinado), os bancos de imagens enviam as fotos em alta resolução, confiro, uma por uma, peço os créditos, envio tudo para os designers... e depois tem que conferir se foi tudo inserido no arquivo do livro com os devidos créditos. Mas muitos livros não têm imagens no miolo porque encarece demais o preço final do livro.

Quando o livro tem CD de áudio (lembrando que a linha de publicação da editora é de livros para ensino/aprendizado de idiomas), o autor envia o script, o estúdio envia um orçamento, agendo a gravação com os locutores, vejo se todos podem gravar em um determinado dia e horário, vejo se o estúdio está disponível, confirmo tudo, imprimo 'x' vias do script, dependendo do número de locutores, faço os contratos dos locutores, combino com o responsável pela gravação/estúdio para ele passar na editora para pegar (scripts e contratos, assim os locutores podem assinar no dia da gravação). Depois da gravação, um (ou dois) CD é masterizado, gerando a “master” (CD a partir do qual as cópias serão feitas). Preparo contrato de duplicação de CDs, vou pro cartório reconhecer assinatura do editor, depois envio isso e a(s) master(s) para a empresa que vai duplicar/copiar os CDs. Nisso também já envio, por e-mail, o pedido (com todos os dados – número de cópias, endereço da gráfica onde os CDs devem ser entregues, etc.) e o arquivo com a arte final para o rótulo do CD (aquela “estampa” que aparece na parte de cima de CDs e DVDs), feito pelo(a) mesmo(a) designer responsável pelo projeto gráfico da capa e do miolo.

Pronto, aí, quando os CDs ficam prontos, a gráfica anexa na parte interna dos livros, faz o “shrink” (coloca aquele plástico para proteger o livro) e entrega assim, com o CD já anexado.

Fora isso, tem também uma parte “administrativa”, que é a parte dos entediantes relatórios. Faz parte da rotina de trabalho. Coloco dados de custos, vendas etc. em planilhas mensais. Hoje em dia, mais ou menos mensais, porque o editor sempre me lembra que a produção dos livros é mais importante e que os relatórios não são prioridade – então, faço quando dá, mas sei que são importantes para dar uma visão geral dos custos e das vendas.

Em meio a tudo isso, responder e-mails importantes e desimportantes, atender telefone, ir aos correios, organizar pastas com documentos e relatórios de cada livro e fazer compras em geral. E ser simpática com todo mundo que entra em contato com a editora, mesmo quando a pessoa só quer jogar conversa fora e tenho vontade de falar “pelamordedeus, me deixa trabalhar!”.

Quando o livro impresso fica pronto, recebo cópias na editora e peço para uma colega da distribuidora (onde ficam armazenados os livros para venda) enviar cópias para os designers que trabalharam naquele determinado livro. Essa é a parte final que encerra o ciclo todo.

Quando se trata de uma reimpressão (o livro já foi impresso uma vez, tudo foi comprado e o estoque precisa ser reposto), é um pouco mais simples porque os arquivos do livro já estão prontos – ou seja, todos os detalhes do livro foram verificados anteriormente –, só precisa alterar uma informação ou outra (o designer que trabalhou no livro acerta rapidamente o arquivo e também confiro rápido), faço as cotações de gráfica e papel (e solicito CDs, se for o caso), e o diretor aprovando os orçamentos, é só avisar a gráfica que os arquivos e o papel para impressão serão enviados.

ISBN (International Standard Book Number, número de registro internacional do livro – cada livro precisa ter um, geralmente aparece junto do código de barras na contracapa do livro) e ficha catalográfica. A parte de solicitar/comprar o ISBN é a mais burral de todo o processo. Há quase um ano a Fundação Biblioteca Nacional (http://www.isbn.bn.br/), no Rio, que é responsável pelo controle e venda de ISBN, está falando que o sistema será feito online. Ahã. Enquanto isso, é preciso fazer assim: comprar antecipadamente os ISBNs, fazendo depósito no Santander. É preciso enviar por correio o comprovante original (como algumas editoras estavam dando calote, enviando cópias de recibo, comprovantes de depósito por envelope e não depositando o dinheiro no envelope etc., agora solicitam o comprovante original e pedem para ficarmos com uma cópia, no caso de extravio). A venda só é possível se a editora comprovar que 80% dos ISBNs vendidos anteriormente foram usados: é preciso preencher uma ficha padrão deles para cada livro (título, número de páginas, ISBN etc) e anexar a folha de rosto (aquela página inicial do livro, com nome do autor, título e editora, às vezes, a cidade e o ano também), imprimir tudo e enviar por correio (me sinto na Idade da Pedra). Se não enviar essas fichas, além das folhas de rosto, eles não liberam a venda de mais ISBNs. Mais ou menos de quatro em quatro meses, preciso passar por isso. “Tanta louça pra lavar e eu aqui preenchendo essas merdas de fichas, sendo que tudo poderia ser feito online, se houvesse um sistema online - muito mais rápido e prático!” Passada a revolta e recebendo os ISBNs, fico bem.

Para solicitar a ficha catalográfica (em geral é incluída na página de créditos, no verso da folha de rosto) no site da CBL (Câmara Brasileira do Livro), em São Paulo, é preciso ter o ISBN do livro. Entro com o login e senha da editora, preencho dados do livro, ISBN (vou dando aos livros os números de ISBN comprados), anexo as primeiras 20 páginas do livro diagramado em arquivo PDF no pedido e solicito - tudo online. Recebo confirmação de solicitação por e-mail. Depois de alguns dias, recebo a ficha catalográfica, confiro (uma vez não sei COMO colocaram o nome de uma editora concorrente na ficha catalográfica! Haha, mas foi a única vez. Em geral, o pessoal da CBL é bem cuidadoso e, em caso de dúvida, ligam para confirmar dados do livro antes de emitir a ficha). Tudo bem prático e fácil, diferentemente do que acontece para comprar ISBNs.

Uma coisa óbvia que só percebi quando fui trabalhar na editora atual: se o autor é bem organizado, o livro fica pronto muito rápido, não tem muitos vai e vens de e-mails, acertos, indecisões; se o designer/diagramador tem uma boa formação e entende do que faz, além de ter cultural geral e senso crítico, há uma boa chance de o livro chegar a ficar perfeito ou muito perto disso. Nos últimos meses, tivemos alguns problemas com autores enrolados, o que também me sobrecarregou e cansou. Se o autor não entrega o arquivo acertado (muito próximo do que ele quer impresso no livro) para o designer e depois fica pedindo milhares de alterações, a vida fica bem difícil. Sem brincadeira, um autor enviou CINQUENTA páginas com pedido de alterações; a designer deve ter ficado injuriada – e eu me estressei um pouco porque tive de verificar se todas as alterações foram feitas no arquivo do livro, um puta tempo perdido, enquanto outras coisas importantes ficaram esperando; explicando melhor: o autor muito provavelmente enviou o arquivo sem uma última lida para ver se havia erros de digitação ou as coisas que ele queria padronizar ou alterar. Mas sorte que esse tipo de autor não é regra na casa. Se fosse, eu certamente estaria procurando outra editora para trabalhar; sério, é muito estressante trabalhar com gente assim, que parece que não leva as coisas a sério. Depois desse ocorrido, o editor passou um “sermão elegante” e o livro seguinte desse mesmo autor já foi menos estressante (teve bem menos correções).

Talvez no futuro eu consiga focar minha carreira apenas no departamento editorial (como na primeira editora onde trabalhei), sem precisar colocar a mão na produção, mas essa fase está sendo muito importante; acho que eu precisava/preciso ter essa noção de todo o processo de publicação do livro.

São muitas coisas, muitos detalhes. Às vezes acontecem algumas falhas, daí precisa corrigir na reimpressão seguinte. Não é nenhum fim do mundo, mas me sinto péssima quando descubro um detalhe, um erro, que só depois que o livro está impresso. Coisas que só amantes de livros sabem o que é.

Publicado originalmente em 13/04/2012 nesse meu outro blogue.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Início

Olá!

Decidi fazer este blogue, pois, depois do meu post "Então você quer ser editor(a) de livros?" no meu blogue pessoal, comecei a receber muitas perguntas, tanto nos comentários do post quanto por e-mail. Como não tenho tanto tempo disponível, achei que a melhor forma seria compartilhar fatos, ideias, reflexões e devaneios sobre o trabalho em uma editora aqui, para que todos possam ler e tirar dúvidas.

Se quiserem, podem sugerir temas para posts no campo de comentários e eu tentarei escrever sobre suas dúvidas nos próximos posts.

Obrigada pela visita.

Enjoy! :)